Sustentabilidade: quando a visão será enfim consciência?

Pedro Rivas

Doutor pela Rennes Business School (França), PMP. Professor (ESPM). Cultura, Comunicação e Sustentabilidade.

No mundo empresarial, a ideia de sustentabilidade emergiu de forma mais evidente através da responsabilidade social corporativa. Como a ponta de um iceberg, ela deu as caras no mundo corporativo tentando articular uma visão e justificativa filosófica socioambiental à atuação das empresas.

O engajamento socioambiental encontrou nas empresas um lugar para chamar de seu. Fizemos um acordo com as marcas: “você polui, investe em um ou dois projetos, e eu passo amar e comprar a sua marca. Adoro camisetas com bichinhos ameaçados de extinção, me sinto mais leve. As pessoas percebem como eu sou adepto as causas ambientais, você continua poluindo, eu continuo comprando a sua marca, e assim vamos”. Enquanto isso, todos os impactos da operação da empresa, com seus produtos e serviços, continuam na mesma. Em resumo, um contrato social para acomodar o injustificável.

Em 1953Howard Bowen, considerado como um dos precursores da responsabilidade social, publicou “A responsabilidade do homem de negócios”. De lá para cá, o conceito evoluiu a passos largos, passando pela Eco92, Rio+20, entre outros marcos. Na década de 90, principalmente, a responsabilidade socioambiental vestiu a sua roupa verde mais bonita. É como se as empresas estivessem sedentas por falar sobre preocupações sócio-ambientais e entendessem que precisariam ter um mínimo de atuação neste campo para que seus discursos reverberassem alguma legitimidade.

No entanto, a atuação ética e responsável da empresa em todas as suas práticas e realizações, com todos os seus públicos, faz parte de uma visão mais contemporânea da Responsabilidade Social. Mas o que fica na nossa mente, muitas vezes, é o investimento social privado em ONGS, geralmente legítimas e sérias, que agem como advogadas da reputação das organizações patrocinadoras. O cenário é complexo, o jogo é pesado, e por isso não há diagnóstico simplista que dê conta.

Passamos por uma febre verde que hoje parece ter se arrefecido um pouco, no sentido de que as marcas estão começando a entender que não dá para brincar de ser sustentável, se você não estiver determinado a isso. Mas os relatórios de sustentabilidade, apesar de todos os esforços e metodologias sofisticadas, acabam por configurar-se muitas vezes como peças de ficção, ao menos para quem está mais atento ao rumo da sustentabilidade no mundo. Toda empresa é verde, com impacto positivo, geração de empregos e com excelência em sua atuação. “Se todas as marcas querem salvar o planeta, quem é o filho da puta que está destruindo essa porra?” Provoca o publicitário Marcelo Serpa.(https://bit.ly/3hWtKu5)

Seguimos sem resposta, mas é preciso continuar. A responsabilidade social deve continuar, os relatórios também. Acredito que é possível fazer um trabalho digno no âmbito da Responsabilidade Social Corporativa. Mas precisamos avançar. Não é humanamente aceitável que a Responsabilidade Social seja na prática uma disciplina limitada a um trabalho sofisticado de relações públicas para manter um sistema falido funcionando por mais tempo do que deveria. Não dá para aceitar que estes profissionais sejam apenas técnicos ultra-especializados nas causas socio-ambientais para que saibam manejar os atores sociais, a opinião pública, e as pautas identitárias, através de uma retórica qualificada e uma empatia de laboratório. É preciso crítica e pragmatismo. Esses profissionais operam esse conflito sistêmico dentro de si, mas estamos falando de uma crise civilizatória.

Conforme publiquei no ensaio sobre Economia Circular (https://bityli.com/WeQWn), algumas abordagens estão ganhando a cena no mundo da sustentabilidade, uma delas é a Economia Circular. Trata-se de um novo paradigma que busca redesenhar a maneira como os bens de consumo são produzidos e a maneira como se trata o lixo, na qual o descarte é pensado desde a produção, para um reaproveitamento efetivo. Na Economia Circular, o mal menor não é solução, e o lixo é um erro de design.

Outra abordagem, que envolve também a Economia Circular e que vem ganhando terreno, é o movimento das Empresas B, que tem como pivô o Sistema B. Um dos principais trabalhos do Sistema B é um processo de certificação a partir de uma avaliação minuciosa sobre as práticas de cada empresa em relação ao seu impacto no meio ambiente e na sociedade. As empresas que obtêm essa certificação são chamadas de Empresa B.

O Sistema B subiu a régua da responsabilidade social corporativa rumo a uma sustentabilidade mais efetiva, através de uma análise transversal de toda a atuação da empresa. Empresas que não estão alinhadas com os propósitos do desenvolvimento sustentável terão dificuldade em obter a certificação, mesmo que tragam um propósito legítimo de atuação responsável em um campo específico na sua atuação.

O aspecto sistêmico tornou-se fundamental. Onde há sistema não existe fora, tudo tem causa e efeito, e tudo está conectado. Fazer bonito num campo para poder estragar o outro não é mais aceitável no paradigma da sustentabilidade que se apresenta. Por isso o Sistema B declara buscar “uma nova genética econômica que permita que os valores e a ética inspirem soluções coletivas sem esquecer das necessidades particulares” (www.sistemab.org).

Uma nova genética econômica. Precisamos disso: novas narrativas, novas vozes. O contexto global é árduo, e por isso estamos sedentos por novos sentidos e cenários. Carecemos de uma visão inspiradora e real, queremos sonhar de olhos abertos.

A pandemia global que arrebatou o planeta instalou uma lupa no espírito do tempo que já vivíamos. Globalmente estamos novamente, de maneira mais intensa, discutindo as energias renováveis, o lugar do trabalho nas nossas vidas, a mobilidade urbana, orgânicos, agrotóxicos, a desigualdade social, a distribuição de renda, a taxação de fortunas. Tudo que era importante discutir agora tornou-se inevitável.

Tudo isso está fazendo com que a sustentabilidade ganhe novos ares, e quem sabe sairemos desse momento com um novo olhar sobre esse jovem paradigma. Estamos reiniciando e reconfigurando o sistema, e assim estamos avaliando o peso de cada uma das escolhas que sempre fizemos sem pensar muito bem.

A pergunta que fica é: até quando este simulacro desenvolvimentista criado pela modernidade sobreviverá desta forma? O que falta? Quando teremos de fato uma adesão por um novo paradigma?

Fred Gelli, CEO da Tátil, agência de design, afirma num vídeo em que discute o engajamento para a mudança, (https://bityli.com/thGGb), que a natureza só atrai e engaja pela beleza e pelo desejo. Está nos animais e nas flores as cores e formas que atraem, nas suas dinâmicas de reprodução. A restrição e o medo não engajam. Que a natureza nos inspire e nos ensine a cuidar dela, e de nós.

A escola de criatividade Perestroika, que se popularizou pelos seus cursos diferenciados, deseja transformar o mundo num lugar mais subversivo, criativo, sensível e do bem. Certamente todo mundo quer que o mundo seja um lugar do bem, mas sem criatividade e alguma coisa fora da caixa, ninguém terá interesse em construir esse novo mundo que quer nascer.

Precisamos de uma nova visão que valha o engajamento, a concorrência é forte. A modernidade parece ter criado uma espécie de não-lugar, extremamente sexy e atraente, onde tudo podemos. Neste não-lugar, não precisamos pensar em nada, basta desejar, comprar, consumir, ter o dinheiro e ser feliz.

Estive uma vez na Time Square. Se existe um não-lugar na Terra, acho que é ali. No meio de uma cidade efervescente, ao lado da Broadway, onde a arte apoteótica pulsa e as telas tentam esfregar os pixels nos seus olhos, ao mesmo tempo, incrivelmente, nada acontece. Não há vestígio de natureza. Há um silêncio profundo coberto por um burburinho constante. O silêncio é mais fortemente interrompido vez por outra por uma apresentação de artistas de rua, e tudo volta ao normal.

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Está ali uma instalação artística contemporânea a céu aberto: pessoas que compram olham prédios e telas, que estão a ali para mostrar para pessoas que olham prédios e telas como elas devem comprar as coisas que pessoas na Time Square devem comprar.

A partir de um lugar de alienação política e social, pensar a sustentabilidade não pode parecer outra coisa senão restrição. Por isso precisamos de um outro ponto de vista, um outro ponto de partida, para perceber o sentido de cuidar da nossa casa, e deste lugar despertar o desejo pelo novo, pela liberdade, pela utopia.

A luta de um paradigma que quer nascer

Em novembro deste ano (após adiamento em função da pandemia) acontecerá em Assis (Itália) o evento ‘Francesco Economy’ (www.francescoeconomy.org). O evento é um chamado global de Jorge Mario Bergoglio (sim, o Papa Francisco) à juventude, para discutir um nova economia, socialmente justa e que respeite o meio ambiente, que entenda a terra como Nossa Casa Comum.

Esta não é a primeira investida do Papa neste sentido. Em 2015 ele publicou a Encíclica Laudato Si, em que discorre sobre a Nossa Casa Comum.

“O movimento ecológico mundial já percorreu um longo e rico caminho, tendo gerado numerosas agregações de cidadãos que ajudaram na consciencialização. Infelizmente, muitos esforços na busca de soluções concretas para a crise ambiental acabam, com frequência, frustrados não só pela recusa dos poderosos, mas também pelo desinteresse dos outros. As atitudes que dificultam os caminhos de solução, mesmo entre os crentes, vão da negação do problema à indiferença, à resignação acomodada ou à confiança cega nas soluções técnicas. Precisamos de nova solidariedade universal.” (Papa Francisco, https://bit.ly/2PhE7fu)

O sistema capitalista é astuto e veloz. Tudo que faz a máquina girar é prontamente tragado para dentro sua lógica. Investidores voltados às causas ambientais sociais e de governança, conhecidos como Investiores ESG (environmental, social, governance), aumentam a cobrança pela atuação responsável das empresas. Recentemente fundos que administram cerca de US$4,1 trilhões pressionaram o governo do Brasil através de uma carta aberta. Motivo: querem discutir o desmatamento no país, em função das restrições impostas pela legislação europeia a investimentos em contexto que possam ser associados ao desmatamento ou desrespeito a direitos humanos.

Interesse? É claro. O sistema nunca operou na base do altruísmo, mas se a política é a arte do possível, é desse jeito que o mundo caminha, é nesse jogo que a luta se dará. Na medida que o desenvolvimento sustentável avança, as trincheiras do sistema serão restabelecidas. Será preciso integrar as tensões deste mundo nesta longa transição. As vitórias nunca são o que parecem, as conquistas podem ser desfeitas, mas a utopia segue no horizonte.

Sabemos que a ‘escravidão não acabou’ por falta de escravos, e o petróleo não será superado pela falta de petróleo. No entanto, não precisamos nos somar à força do hábito, e ao coro da acomodação. Um novo paradigma está nascendo e se cristalizando aos poucos, e a formação de sentido depende de interesse, de esforço, e reflexão, de inspiração, e visão.

A sustentabilidade de um paradigma

É preciso levar a realidade a sério. Não se trata de salvar o planeta, tudo indica que ele permanecerá independentemente da nossa atuação. Trata-se de salvar a nossa espécie, ou pelo menos uma forma digna de viver aqui. Trata-se de despertar a consciência a cada dia para que um novo caminho possa florescer.

A sustentabilidade não pode ser uma pauta de nicho, não deve ser um interesse específico, nem mesmo uma ciência restrita a biólogos, filósofos, políticos ou ecologistas. Deverá ser interesse de todos, pois envolve todas as causas. Ela diz respeito ao que poderá ser mantido, declara aquilo que ficará de pé.

No filme Guardiões da Terra — Agroecologia em Evolução, vemos a ascensão de um nobre movimento, e a longa história de uma prática com raízes ancestrais, atravessada por uma revolução que trouxe a mecanização para o campo, e que viu uma nova investida do sistema com o império dos transgênicos. Apesar de tudo, o movimento agroecológico se articula na sociedade civil, entre produtores e acadêmicos, e pleiteia um lugar ao sol na prática, nas narrativas da utopia, e na possibilidade de configurar-se como uma solução para o fornecimento de alimentos em escala global.

O espírito do tempo se revela nesse belo movimento que ao declarar-se como considerável alternativa e inovação frente ao sistema atual , abraça o movimento feminista na frase: Sem feminismo, não há Agroecologia. Assim deve ser qualquer brado sobre técnica ou paradigma que queria arrebanhar e inspirar uma nação: inclusivo. Desconfie daquilo que esquece do lugar onde estamos, que não inclui a todos e que não pensa de forma sistêmica e holística. Simplesmente desconfie.

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“A morada do homem é o extraordinário.” (Heráclito)

Sustentabilidade é condição e atributo daquilo que permanece. Do mundo das ideias vem a inspiração que queremos consolidar no mundo das engrenagens de ferro. Mas elas, as ideias, não morrem. Olhe no fundo dos olhos dos ativistas. Eles são firmes porque estão plantados numa visão.

“A pergunta mais importante é: o universo é amigável?” declarou Einsten certa vez, quando perguntado sobre qual seria a mais relevante indagação. Talvez quisesse ele saber se poderíamos contar com uma ajudinha cósmica na nossa errante odisseia. Sendo o universo nosso amigo, que lugar esse anfitrião teria guardado para uma nobre ciência de cuidar da vida no único planeta habitável hoje conhecido?

Utopia, sentido e permanência. É o que sinto e o que me vem a minha mente quando penso em sustentabilidade. Respire dentro desta palavra e perceba que ela está viva. 

Eu não sei se acontece com você. Novos conceitos, novas metodologias, novas abordagens têm sempre algum potencial de serem vistos de forma meio atravessada num ambiente profissional, a depender de onde esteja. Seria medo?

É preciso saber que quando se trata de inovação há sempre risco. Para a gente se disponibilizar para o novo, será preciso abrir mão de alguma zona de conforto. Mas a questão não é tão simples. Geralmente esse medo está entranhado. É preciso tempo e persistência para vencê-lo.

Muitas vezes um processo de inovação envolve reunir pessoas, desenvolver dinâmicas. “Precisa abraçar?” Pergunta o engraçadinho. Pois bem. Mais difícil do que participar daquelas dinâmicas de grupo é organizá-las. Sim. Se quando você participa de uma dinâmica, você tem medo de ser solicitado pra fazer algo, talvez seja porque você não conhece o medo de ter que pedir aquilo para as pessoas. Para organizar estes encontros, você precisa marcar aquela reunião, chamar as pessoas, lidar com os atrasos, como celular das pessoas, o whatsapp, os olhares, as queixas ocultas, a pressa para ir embora, e tudo mais. Tudo isso com a pressão de no final do processo apresentar um relatório que justifique todo aquele HH investido.

Depois de iniciado o encontro, mesmo que tudo comece direito, você terá ainda todo o trabalho pela frente. E não tem jeito: você terá que lidar com os silêncios, os vazios, a imprevisibilidade, a dúvida, eventuais comentários, e a incerteza sobre resultados. Não dá pra prever o resultado de um processo que busca inovação. É isso: não dá pra prever o resultado de um processo que busca o ‘novo’.

Se acostume com isso: quem inova não sabe o que vai acontecer. O desbravador competente sabe o que está fazendo, mas desconhece o resultado. Ele simplesmente convida a todos para verem o nascer de um sol em um lugar e horário onde na realidade ele não faz a menor ideia se de fato ocorrerá. Só dá pra fazer isso acreditando em si mesmo. Acreditar onde se pisa, e acreditar que logo ali há de surgir um novo terreno pra pisar. Esse terreno é a novidade, o novo que brotou do processo de inovação. O desbravador fareja o novo que emergirá através da busca, do estudo, do preparo, do bom convívio, e principalmente da experimentação contínua.

Se inovar é uma arte, lembre-se: mesmo os grandes artistas sempre relatam o frio na barriga antes de todo show. Esse é o preço de não viver dentro de uma rotina morta, é o preço de querer se submeter ao mistério. Mas é essa energia que faz você avançar, porque você sabe na verdade que ela é inevitável, é incontornável para poder crescer e fazer o que tem que ser feito.

Por isso eu digo: da próxima vez que você quiser inovar, inove. Faça o seu trabalho de casa bem feito e realize. É preciso ter preparo, cuidado e calcular os riscos. Mas não esqueça que a vitória é feita também de persistência, coragem e cara de pau.